Sobre medicar um paciente

Medicar um paciente não é um gesto simples, embora muitas vezes seja tratado como tal. Entre identificar um sintoma e prescrever algo, existe um espaço que nem sempre é respeitado.

Há uma tendência de associar rapidamente sofrimento a necessidade de medicação. Em alguns casos, isso é adequado. Em outros, pode ser uma forma de responder rápido demais a algo que ainda não foi suficientemente compreendido.

A prescrição, quando bem indicada, organiza. Reduz intensidade, devolve algum nível de funcionamento, cria condições para que o paciente consiga sustentar a própria vida com menos sofrimento. Mas isso não acontece apenas pela escolha da droga.

Medicar corretamente envolve tempo.

Tempo para entender o quadro, para diferenciar o que é episódico do que é estrutural, para avaliar contexto, história, padrões de repetição. Nem sempre a primeira queixa aponta para o ponto central do problema. E quando isso não é considerado, a medicação pode até aliviar algo, mas deixa o restante intocado.

Há também uma tendência a ajustar medicações como quem ajusta parâmetros técnicos: aumenta, troca, associa. Em alguns casos isso é necessário. Em outros, esse movimento constante impede que se observe o que realmente está acontecendo.

Nem toda resposta lenta é falha de tratamento. Nem todo efeito colateral exige mudança imediata. Nem toda melhora parcial pede mais intervenção.

Saber quando não mexer faz parte da mesma lógica de saber quando intervir.

Outro ponto importante é que a medicação não atua isoladamente. Ela entra em uma relação — com o paciente, com a forma como ele entende o próprio sofrimento, com suas expectativas e, muitas vezes, com sua história de cuidado.

Há pacientes que esperam na medicação uma solução completa. Outros resistem, tomam de forma irregular ou abandonam rapidamente. Em ambos os casos, não se trata apenas da droga em si, mas do lugar que ela ocupa para aquele sujeito.

Prescrever, então, não é apenas escolher uma substância. É introduzir algo que vai fazer parte da experiência do paciente com o próprio corpo e com o próprio sofrimento.

Quando isso é feito de forma apressada, a medicação tende a virar tentativa e erro. Quando é feito com mais precisão, ela passa a ter função.

No fim, medicar corretamente não é medicar mais nem medicar menos. É medicar quando há indicação, com clareza do que se está fazendo e com atenção ao que acontece depois.

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